Do gesso à ferrugem, de volta às origens: um olhar sobre nosso estilo de vida

Eu simplesmente fazia um post sobre a aparência da passagem do tempo na decoração, dos móveis gastos, das falhas nas superfícies e quando me dei conta, a questão ia muito mais além do que texturas. Comecei a pensar em como vivemos a vida hoje.

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Parece que ou a gente não sabe pra onde ir, ou não consegue mais criar, e então voltamos às origens, aos clássicos e buscamos aquilo que está mais próximo ao original, ao genuíno, sem máscaras, sem reboco, sem acabamento. Fazemos questão de mostrar as camadas, o que tem por baixo e, principalmente, como se faz. Tudo fica aparente.

As pessoas postam como elas fazem as coisas. Todas as coisas. Há tutorial para fazer tudo. A graça não é aparecer maquiada na festa, mas mostrar o antes, a cara lavada e como ficou depois, além de quais produtos foram usados. Os programas de TV estilo reality existem aos montes e tratam sempre sobre o durante alguma coisa e pouco mostram dos resultados.

Mas, se a internet está fazendo a gente recortar e expor somente os melhores momentos da vida, como muito se critica por aí, pelo menos estamos mostrando como se faz esses melhores momentos. Os percalços na criação são a estrela, os bastidores do processo revelado é o grande lance. A coisa pronta, o fake não atrai as pessoas, os espectadores. Pode até ser fake, mas que seja tão bem feito fake pra que possa parecer improvisado, sem querer.

Então, seguindo o raciocínio, queremos produzir as coisas. Nossa cerveja, nossos cupcakes, nossa horta, nossa vaca.

Você não compra mais alface no mercado, você cria no telhado e no parapeito do seu apartamento. Com a disseminação da cultura hidropônica, então, a produção fica mais acessível.

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E falando em produzir nós mesmos, os Do It Yourself, identificados pela sigla DIY – ou o nosso velho conhecido Faça Você Mesmo – são ótimos aliados na decoração pois evocam o discurso da reciclagem, tão importante hoje. A reutilização de materiais nunca esteve tão presente e valorizada.

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Por exemplo: há inúmeras ideias reaproveitando vidros. Com eles, podemos fazer nosso próprio conjunto de banheiro além de luminárias exclusivas. Não é uma maravilha?

Os terrários voltaram com tudo. Por meio da transparência do vidro, podemos observar o desenvolvimento da natureza em um microuniverso. E decora que é uma beleza!

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E pra quê gastar recursos e poluir o ambiente produzindo embalagens? Acabou o papel? Enrola com jornal. No exterior, fast food “cool” é aquele servido enrolado em jornal. Vamos combinar? Eca!

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Ok, ok, fica fofo, eu sei.

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Ah, e o que dizer da dieta paleolítica? Os industrializados tomaram conta da nossa vida de tal forma que teve uma galera voltando a se alimentar como o homem das cavernas. Bota resgate nisso!

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E o resgate do vintage parece que se perpetuou. Mas para atingir o mercado em larga escala, foi produzido o retrô: peças feitas hoje, novinhas em folha, mas com cara antiga. Mas se esse antigo não tiver marcas do tempo, de que adianta a cara? Vocês não acham meio estranho, às vezes? Aquela peça evocando tempos áureos mas com aquele cheiro de plástico saído da caixa? Tá, é melhor que naftalina, concordo.

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No quesito celebrações, o aspecto hand made foi completamente incorporado e quanto mais próximo da verdade, melhor, ou seja, quanto mais aparecer você e não sua maquiagem ou o coque gigante, melhor. Os penteados das noivas estão ficando mais bagunçados e soltos, com texturas naturais, com cara de “acordei e vou pro altar”. Gel e laquê, hoje, só pra fazer coque de bailarina e olhe lá!

Os próprios vestidos de noiva reduziram o número de camadas. Foram-se as saias de armação, os modelos bolo de noiva. Menos é mais. Menos revela quem você realmente é. E não tem personagem melhor pra vestir num dia especial destes, ahn?

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Bolos revelam seus recheios. Os naked cakes deram um chega pra lá na pasta americana, ficando muito mais apetitosos. E lindos. Luz e foco neles!

Chegando na decoração, na parte que nos toca – também –, além do que nós mesmos criamos reutilizando objetos, também queremos usar coisas que são usadas para produzir coisas. Pois é! Que volta que a gente deu! É o industrial que veio pra dentro de casa. O metal pesado e enferrujado nunca foi tão querido – e, acreditem, aconchegante.

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No combo ali de cima, organizadores da Desmobilia, luminária e porta de correr de metal que, ora divide os ambientes, ora integra tudo, ampliando a área – perfeita pra esconder a bagunça!

Mas como alguém vai querer algo frio, duro e com ferrugem pra fazer a casa ficar aconchegante? Justamente pelas falhas, pelo aspecto do uso, da ação humana. O gesso e tudo o que camufla parece muito falso, nos distancia da realidade, nos engana, e fora que nos rouba espaço. As texturas desgastadas, encontradas também na estética industrial, trazem essa coisa do humano, do uso, do que é natural. É natural usarmos os objetos e os espaços, e as marcas do uso são um reflexo desse humano, trazendo aconchego. Um sapato de couro usado é muito mais confortável que um sapato de couro novinho, que te aperta e praticamente expulsa o seu pé. O desgaste, além de trazer conforto, traz a sensação da posse, de que aquilo realmente te pertence e você usa. Em suma, as pessoas querem enxergar sua marca nas coisas.

Por isso, a estética do gasto, do industrial não é fria e distante, pelo contrário, revela a presença do humano.

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Descascar as paredes, desnudar as construções. Tudo revelado. É o que mostra o uso corrente da laje nervurada, presente nos dois ambientes da foto ali de cima. Na verdade, ela sempre esteve aí, como tudo que estamos vendo aqui no post, só que sempre escondida. Hoje, a quantidade de projetos que deixam a textura exposta é suficiente pra gente já enjoar dela.

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Gesso pra embutir a iluminação? Pra quê, se podemos suspender lâmpadas nessas correntes e ganchos rústicos maravilhosos? O chão judiado pelo uso foi valorizado pela proximidade com o mobiliário novo em folha, como mostra o brilho sobre os assentos e o reflexo na bancada.

O tijolo à vista dispensa apresentações. Ícone da tendência industrial, cai bem tanto em ambientes sóbrios quanto em quartos suaves de bebês:

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Com a estrutura elétrica aparente, além de se obter um visual urbano, pode-se posicionar interruptores onde bem entender, sem quebradeira, sujeira, nem estresse!

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E pra fazer dupla com as tubulações aparentes, a textura de cimento queimado é imbatível. Sucesso garantido.

De novo, nada de gesso pra esconder a fiação. O efeito é todo das lâmpadas e seus contornos.

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Quem diria que moldura sozinha faz verão? ou melhor, decoração? O tempo embelezou estes espelhos. E você vai ficar gastando com espelho novo e perder esse charme todo?

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Casas de praia, campo ou até mesmo lofts mantêm as estruturas da laje original. Pintou, tá nova.

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É a arte e a beleza da intervenção.

Isso mesmo. Por mais que tenha saído de fábrica, tem que ter uma intervenção, seja do tempo, do uso, do descuido, da intenção.

Fotos: Reprodução

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