Porto Alegre náutica: o passeio de Catamarã e a orla de Guaíba | Parte 1

A história da Casa Baunilha lembra aquelas bonecas russas, que você descobre uma menor na medida em que abre a maior. Só que no sentido inverso, do universo micro para o macro. Eu criei o blog pra compartilhar ideias de decoração. Quando entendi que decorar era uma ação autobiográfica os assuntos ampliaram para o morar e o viver. E há algum tempo expandiram para a cidade, a casa maior onde reside a nossa própria casa, o nosso morar e o nosso viver.

Confesso que nunca me entusiasmei tanto com o evento “aniversário de Porto Alegre” quanto agora, acho que justamente por essa busca em entender, afinal, quem ela é. E desconfio também de algo disfarçado no subconsciente, uma necessidade de exercer o livre arbítrio diante do momento atual da capital que sofre com a falta de segurança.

Dentre as várias atividades promovidas e lembradas pela semana do aniversário da cidade, finalmente realizei uma das que eu sempre quis mas deixava pra depois. Exatamente no dia do aniversário de 245 anos de Porto Alegre, no último domingo (26 de março), fiz um passeio de Catamarã. E foi ótimo. Agora, enfim, posso compartilhar minhas impressões. E olha, é um programa e tanto pra um fim de semana. Prepare o teu chimarrão e bom passeio.

No terminal somos recepcionados pela Nossa Senhora dos Navegantes – uma herança dos desbravadores portugueses -, que também parece abençoar a cidade de alguma forma – adorei os reflexos dos prédios se misturando com a imagem dela. Ela sempre com seu olhar de muita seriedade. Mas também, não é pra menos. Olhar por uma cidade como Porto Alegre é uma posição de muita responsa. Se fosse uma imagem minha, eu estaria com os olhos arregalados.

O terminal hidroviário fica no Cais do Porto em um de seus vários e antigos pavilhões, muito bem adaptado, por sinal. Como era domingo, não havia muito movimento, o ar condicionado estava funcionando a valer e o banheiro feminino limpíssimo. Estava, inclusive, um perfume que só. Sério, fiquei impressionada com a manutenção do banheiro – tomara que seja assim para todo o sempre. Há uma pequena biblioteca pra ajudar a passar o tempo e também um bar com lanches e bebidas. Só senti falta de um relógio grande na área de espera. Claro que eles avisam, via caixas de som, quando faltam 15, 5 e 2 minutos para a partida.

O passeio custa R$ 10,10 pra ir até a cidade de Guaíba, parando antes no terminal do Barra Shopping na zona sul de Porto Alegre. Eu sei que um transporte como esse implica uma série de investimentos e custos, mas achei o valor caro. Fiquei imaginando uma família toda que queira ou que precise fazer a travessia, teria que desembolsar mais de vinte reais – ida mais a volta – por pessoa. Quem viaja todos os dias a trabalho, então, com certeza precisa de algum auxílio.

 

 

Pra quem é acostumado com o passeio o sentimento deve ser outro, mas fiquei fascinada pela imagem da capital vista do rio. Na verdade, só o fato de me deslocar com um meio de transporte a que eu não estou acostumada já é um “acontecimento” por si só. E eu que adoro fotografar a cidade finalmente consegui alguns registros dela de frente. Na foto ali em cima se destacam as altíssimas torres da Igreja Nossa Senhora das Dores, e tanto são que no século XIX eram as únicas coisas realmente altas na região, como dá pra ver em fotos antigas no Museu de Porto Alegre – que você pode conferir num post clicando aqui. Quem vê hoje e ao mesmo tempo tem a noção do antes, se surpreende. Não havia nenhum destes prédios. Só dava ela.

Na ponta da Usina do Gasômetro dá pra ver as obras de revitalização da orla do Guaíba.

Eu comentei sobre isso no post de aniversário de Porto Alegre mas preciso engrossar o coro: uma cidade à beira de um lago deveria se beneficiar mais disso. Vamos combinar, gente, a capital do Rio Grande do Sul não tem sua orla devidamente explorada no sentido de oferecer lazer e oportunidades de convivência, com segurança, promovendo a ocupação e o conhecimento de determinados espaços inexplorados pelos moradores. Porque realmente ninguém vai se arriscar em áreas abandonadas, isoladas ou inacessíveis, mal iluminadas e, por muitas vezes, com acúmulo de lixo. Há muito pouca atividade oferecida que esteja relacionada ao rio. Ou você é proprietário de um barco – o que implica custos de aquisição, manutenção e “garagem”-, ou você não usufrui da vida náutica que Porto Alegre naturalmente tem. É um nicho de mercado que com certeza não está sendo explorado quando falamos em grande público. Uma pena! Podíamos ter mais praças, mais entretenimento, mais espaços culturais, mais museus, mais arborização, mais iluminação, mais preservação, limpeza – sobretudo da água, uma vergonha pra uma cidade que tem margens pra um aguaceiro em abundância. Se cuidássemos disso, teríamos mais áreas costeiras usufruídas pela população e, portanto, mais qualidade de vida e valor para o turismo. De novo, uma pena!

A alvura do Museu Iberê Camargo saltando do paredão verde.

Aqui vai uma dica pra quem quiser fotografar e filmar o passeio. Procure sentar nas últimas cadeiras, na janela, e faça seus registros o quanto antes porque na medida em que a travessia acontece, os vidros ficam encharcados e não há como tirar boas fotos. Dependendo do assento em que você estiver, como nos mais da frente, em determinado momento não há como ver nada.

Aqui eu quis registrar as construções clássicas de Porto Alegre como se estivessem em cima do trapiche. Da esquerda para a direita, Usina do Gasômetro, Catedral Metropolitana e Centro Administrativo do Estado do Rio Grande do Sul – popularmente conhecido como rampa de skate gigante.

 

Acho que não ficou visível no vídeo mas, quando chegamos no píer do Barra Shopping, vimos muitos peixinhos pulando as pequenas ondas que se formaram na praia.

Quando o Catamarã termina de costear Porto Alegre e se volta em direção à cidade de Guaíba, vemos ainda uma ponta da capital onde atrás está o Clube de Jangadeiros, no bairro Tristeza. Dá pra ver inúmeras velas aproveitando por ali e no horizonte o alargamento do lago Guaíba, por onde ele seguirá até encontrar a Lagoa dos Patos.

A travessia leva em torno de 25 minutos e achei bastante segura e confortável, os bancos são espaçosos e há uma distância muito boa entre o seu assento e o da frente. Dá pra ver pela foto que os coletes salva-vidas ficam bem visíveis. Só acho que as informações sobre segurança deveriam ser transmitidas em todos os monitores do barco, até para as pessoas sentadas ao fundo enxergarem, já que o vídeo com as instruções é legendado. E no restante do tempo, em vez de programação de TV corporativa com publicidade, horóscopo e notícias de celebridades de Hollywood, poderiam transmitir informações históricas e culturais que envolvam os municípios de Porto Alegre e Guaíba. Tem tanto pra se conhecer no lugar de eu ficar sabendo se a lua está no ascendente do meu signo. Mas o fato é que, com paisagens lindas surgindo durante o passeio, quem vai querer assistir à TV?

Fiquei muito feliz com a opção que eu escolhi pra passar o domingo. O passeio de Catamarã, realmente, é um programão com muito a oferecer, com um passeio diferente, paisagens lindas durante a travessia e a oportunidade de conhecermos mais sobre Porto Alegre. Além, é claro, do passeio pela orla da cidade de Guaíba, que eu não conhecia. No próximo post, na parte 2, eu vou contar sobre o fim de tarde por lá.

Fotos: Juciéli Botton | Casa Baunilha 

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