Contos de horror, belas ilustrações e muitos sentimentos

Quando criança e, como podem ver, até os dias de hoje, eu tinha este livro, Os mais belos contos de fadas recontados por Lornie Leete-Hodge e ilustrados pela premiadíssima Beverlie Manson, de 1981 – sendo o primeiro de 1978. O que me encantou desde o começo foram as formas dos personagens. Eu era fascinada por aqueles seres diferentes de qualquer coisa que eu já tinha visto na minha vidinha. Eu já sabia das histórias, já haviam me contado, e mesmo quando aprendi a ler não me interessava o que diziam. Toda vez que eu abria o livro era pra me perder naquele primor gráfico, naquelas formas estranhas e, ao mesmo tempo, sedutoras.

Estranhas, sedutoras e algumas também horripilantes. Com meus dedinhos, eu abria o livro bem pouquinho, de forma que segurasse a maior parte das páginas juntas, começando a folhear pelo fim porque era lá que morava o ser mais pavoroso já criado. Eu tinha verdadeiro horror àquele gigante da história do João e o Pé de Feijão.

Eu nunca ia até aquela página quando abria o livro. Nem que me pagassem com um balde recheado de Playmobil – que nunca tive, brincava com os dos meus primos. Mas sempre chegava o dia em que eu dedicava um tempo especialmente ao ato de espiar a criatura horrorosa, levantando bem pouquinho as páginas, a fim de evitar que ele me devorasse pelo nariz, de tão grande que era.

Atenção, imagem forte a seguir…

 

 

Na medida em que os meses iam passando, os dias dedicados a espiar o horroroso ser de sobrancelha florestal se tornavam mais frequentes. Com uma certa regularidade, eu me conectava com ele.

Incrível como formas bizarras do que é horror para cada um de nós pode nos seduzir e nos fazer retornar a elas sempre. Deve ser mais ou menos o que acontece com gente que fica paralisada em frente a um tornado que se aproxima, ou como mostram os inúmeros vídeos do ataque às Torres Gêmeas. Seus instintos dizem pra você correr mas a cena do inacreditável é muito atraente, ninguém quer perder o que está acontecendo. Eu morria de medo do gigante mas, ao mesmo tempo, queria entender aquela massa de gente medonha. Por que era daquele jeito? Qual detalhe será que eu ainda não tinha captado? Será que ele havia se mexido desde a última vez que espiei?

Eu sempre voltava à página dele. Sempre curiosa em relação àquele gigante.

Quando mais velha, comecei a ver as ilustrações como parte de um trabalho que deve cumprir uma função e a ter horror às histórias mesmo, que exploram estereótipos construídos na base do preconceito. Deixo aqui alguns registros de ilustrações do livro que considero incríveis e histórias nem tanto.

A história de duas irmãs, Rosa Branca e Rosa Vermelha, mostra a bondade e a pureza das duas, que ficam sempre ajudando um anão grosseiro e mal agradecido a se livrar de poucas e boas. O tempo inteiro a gente fica angustiada porque elas o ajudam com a melhor das intenções e ele sempre devolve com desaforos pra cima delas. Mas, em compensação, as ilustrações são – sempre foram – de fazer eu querer olhar de novo e de novo e de novo.

A coloração é incrível. A cada cena, uma atmosfera única. Ali em cima, por exemplo, super suave, com o reino ao fundo quase se apagando. A cena de baixo já é mais sóbria.

Esta é a linda ilustração que abre a história de João e Maria, horripilante por sinal! Pais que deixam seus filhos sozinhos na mata, e ainda de madrugada. O estereótipo já arcaico de madrasta que chama os enteados de estúpidos e que, quando morre, do nada, vem um texto na sequência dizendo que os problemas deles, pai e filhos, acabaram. Também tem uma “velha” que quer cozinhar um garotinho e empurrar uma menina dentro do forno. Uma menina que, por fim, empurra a “velha” dentro do forno. Nas histórias, pessoas idosas são chamadas de velhas mesmo. Aham, eu sei. Esses contos são da idade da pedra e ou podem ter sido criados para evitar intrusos em terras de gente rica ou para ensinar às crianças a não falarem com estranhos, essas coisas. Tomara que hoje elas tenham uma outra roupagem. Acho que há um discurso apropriado para cada idade. Tudo bem aos doze anos você descobrir que atiravam o pau no gato, sim. É uma questão da cultura de uma época, da história e de entender que as coisas avançam e são melhoradas. Algumas. Quadro em museu não deve ser censurado. Mas enfim, isso é outro papo.

Aqui, a iconográfica casa feita de doces, criada para atrair crianças.

Famosa cena em que João, sabiamente, estica um ossinho de galinha para convencer a bruxa que ainda está muito magrinho para ser comido por ela.

Esta ilustração faz parte do conto O Ganso Dourado. Uma história também muito legal para crianças. Os pais têm três filhos e o mais novo atende por João Bobo porque faz tudo errado. Ele nunca é encorajado, sempre chamado de “idiota” pela mãe. Os outros filhos recebem bolos feitos na hora por ela enquanto João come pão velho. Linda história.

Cinderela, que era a minha princesa favorita, no momento “doze badaladas da meia noite”. Pois é, há muita discussão em torno das princesas hoje sob o ponto de vista do machismo e concordo por uma lado. Na verdade, o que mais me deixa triste neste olhar atual sobre as histórias com princesas é que nós, meninas, somos treinadas desde que nascemos para o casamento, para receber, amar e respeitar um outro alguém, e os meninos não são. Pra mim, é esse o ponto gerador de toda a problemática.

Mas voltando aos contos de fadas, são registros de épocas e, ao mesmo tempo, fantasias. As árvores falam em Senhor dos Anéis e a Cinderela troca de roupa num passe de mágica. São histórias fantasiosas. Eu tenho modelos sensacionais dentro de casa que sempre estiveram acima disso: meus pais. Pessoas maravilhosas, trabalhadoras e muito pé no chão. A Cinderela não era a minha realidade, era meu passatempo.

Aqui, um pouco antes da meia noite, no momento “Esquadrão da Moda” da história. A propósito, analisando os vestidos do antes e depois, na imagem aqui embaixo, dá pra concluir que hoje a Disney não está vestindo a Cinderela pro baile nem com o vestido do período “gata borralheira” dela, não acham? Cinderela, tu estás sendo enganada, abre teu olho! Exija todos esses brilhantes e plumas e laços e detalhes.

Aqui embaixo, cena da festa do batizado da Bela Adormecida que, até virar “bela” e “adormecida”, não possui nome. É chamada só de “princesinha” mesmo.

Acima, uma das seis fadas que foram convidadas para serem madrinhas da “princesinha”. Elas teriam de dar dons mágicos a ela. Por dons mágicos, saibam: que fosse a mais bela princesa do mundo, que tivesse a natureza de um anjo, que tivesse graça e elegância, que dançasse com perfeição e que cantasse como um rouxinol. Nada de ter autoestima elevada, autoconfiança, determinação, inteligência e não deixar queimar o pão na torradeira.

Acima, a “princesinha” crescida e prestes a furar o dedo na roca, adormecendo por cem anos, conforme uma fada “velha” ordenou. A fada ficou irritada porque não foi convidada para a festa do batizado e joga esse feitiço sobre a “princesinha”. Na história, fadas idosas são esquecidas, dadas como mortas – por isso não são convidadas – e vestem roupas escuras.

Quando adultos, nós não perdemos os horrores. Apenas substituímos alguns ou adquirimos outros na medida em que vivenciamos o que eu chamo de pequenos contos de horror do dia a dia. Como, por exemplo, num fatídico dia em que eu estiver ao lado de alguém e essa pessoa virar a cabeça num ângulo que faça eu perceber que ela não limpa o próprio ouvido. Não estou falando de pouca coisa, de acontecimentos naturais de nossa biologia. Falo de paredões de cera capazes de dividir o corpo em oriental e ocidental. Não, não é algo que eu procuro, não é o horror que fascina. Mas tente não ver. Não dá. Acende na sua cara como semáforo.

Outro pequeno conto de horror do dia a dia, com direito a não dormir à noite, são dentes de crianças amarelados de tanto tomarem Coca Cola. Me assombra na madrugada. Uma imagem difícil de esquecer mas que acaba se transformando em sentimento de pena. Por outro lado, dentes grisalhos de tanto clareamento me dão medo também. Não sei o que acontece. Alguns ficam brancos. Outros, grisalhos. Aquele tonzinho de cinza no lugar errado.

Mais um: a pessoa pergunta se você quer chocolate, você aceita, já antecipando visualmente aquele pacote com a barra dentro, mas a criatura quebra o quadrado com as próprias mãos e te alcança. Um conto com final nojento, já que ela pegou em dinheiro ou coçou a cabeça antes de tocar no chocolate alheio.

Tantas coisas que nos geram pavor e que parecem pequenos contos de horror… Sem mencionar os grandes horrores, como a violência ou crianças nas ruas. Ai, se todos os horrores tivessem a forma estranhamente encantadora do meu gigante!

Em tempo: Essas criaturas estrambóticas causam um certo desconforto mas, ao mesmo tempo, têm expressões de atenção e ainda estão ajudando a segurar o livro para a contadora de histórias. Acho que isso também me ajudou a enxergar o que as pessoas são ou deixam de ser antes de qualquer característica física. Não consigo dizer que tal pessoa é feia. Todo mundo tem o jeito que tem que ter. É como o nome. É como o endereço. Cada forma tem uma razão de ser. O que seria daquela história do João e o Pé de Feijão sem o meu gigante? Tenho pavor quando chegam pra mim e dizem, olha que bebê mais lindo! e vejo que ele tem cabelo loiro e olho azul. Isso tem que automaticamente fazer a criança ser bonita? Pra mim não é isso que faz um bebê bonito, nem uma pessoa adulta bonita. Eu enxergo formas, expressões, atitudes e fico realmente muito incomodada com esses julgamentos. Ou quando estou feliz em mostrar pra alguém o som de uma cantora que admiro, falo da expressão dela, de sua atitude, da inspiração que consegue ser, e tudo o que a pessoa me devolve é: ela é gordinha, né? Isso, pra mim, é mais um dos pequenos contos de horror.

Em tempo 2: Se me permitem, queria expressar meu orgulho por nunca ter riscado uma página sequer desse livro. Ele está impecável, sem rastros de canetinha, de gordura, de amassados ou qualquer coisa do tipo. Sempre cuidei muito das minhas coisas. E esse livro é uma daquelas relíquias que ficam num saco plástico e saem bem de vez em nunca pra virem parar no post de Halloween + Dia da Criança da Casa Baunilha.

O que mais posso dizer? Boas celebrações, gente!

Fotos: Juciéli Botton para Casa Baunilha

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